Quarta-feira Santa

Quarta-feira Santa

No evangelho da Quarta-feira Santa, nos é apresentado a traição de Judas, descrevendo como este foi ter com os chefes dos sacerdotes, a quem se ofereceu para entregar Jesus. Ele aceitou trinta moedas como recompensa da sua traição.

Após ter saído do Cenáculo, onde participou da última ceia de Páscoa, Judas Iscariotes não perdeu tempo para arquitetar a sua traição. Ele foi até os príncipes dos sacerdotes e informou que aquele era o melhor momento para executar o plano. Judas era o responsável por entregar Jesus.

  • Mas porque Jesus não se afastou de Judas mesmo sabendo que ele o trairia?

Entre os numerosos discípulos que o seguiam, Jesus designou doze para serem os mais próximos, para partilharem e continuarem a sua missão. Não foi com ligeireza que instituiu este grupo de doze apóstolos, foi depois de ter rezado toda uma noite.

Mas, a dado momento, Jesus apercebeu-se de uma mudança de atitude em Judas, um dos doze. Jesus compreendeu que ele se afastava interiormente, e até que o ia «entregar», como dizem os evangelhos. Segundo o evangelho de João, já na Galileia, muito antes dos acontecimentos em Jerusalém que deviam levá-lo à cruz, Jesus compreendeu o que se passava (João 6,70-71). Por que razão não afastou Judas nessa altura e o conservou perto de si até ao fim?

Uma das palavras que Jesus utiliza para falar da criação do grupo dos doze apóstolos dá-nos uma pista: «Não vos escolhi eu a vós, os Doze?» (João 6,70; ver também João 13,18). O verbo escolher ou eleger é uma palavra-chave na história bíblica. Deus escolheu Abraão, escolheu Israel para fazer o seu povo. É assim a escolha de Deus que constitui o povo de Deus, o povo da aliança. O que torna a aliança inabalável é que Deus escolhe amar Abraão e os seus descendentes para sempre. O apóstolo Paulo comentará: «Os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis» (Romanos 11,29).

Visto que Jesus escolheu os doze como Deus escolheu o seu povo, não podia mandar embora Judas, mesmo quando compreendeu que ele o ia trair. Sabia que o devia amar até ao fim, para atestar que a escolha de Deus era irrevogável. Os profetas, em particular Oseias e Jeremias, falaram em nome de um Deus magoado e humilhado pelas traições do seu povo, e que, contudo, não cessa de o amar com um amor de eternidade. Jesus não queria nem podia fazer menos: humilhado pela traição de um dos seus íntimos, não deixou de lhe demonstrar o seu amor. Ao baixar-se diante dos seus discípulos para lhes lavar os pés, fez-se o servidor de todos, também de Judas. E foi em particular a Judas que deu um bocado do pão partilhado: parcela de amor ardente que este levou consigo para a noite (João 13, 21.30).

Se queria ser fiel a seu Pai – ao Deus que escolhera Abraão e Israel, ao Deus dos profetas – Jesus tinha que conservar Judas perto de si até ao fim. Amava Judas mesmo quando este estava todo ele preso pelas trevas. «A luz brilhou nas trevas» (João 1,5). O evangelho diz que foi no momento em que deu o seu amor a Judas, no momento em que o ama sem nada ganhar com isso, que Jesus «foi glorificado» (João 13,31). Na mais opaca noite do ressentimento e do ódio, ele manifesta o brilho extraordinário do amor de Deus.

 

 

 

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